quinta-feira, 19 de novembro de 2015

VIAGEM PELAS LETRAS - O BAÚ CONTADOR DE HISTÓRIAS


Salazar, T.(2014). O baú contador de histórias.Nova Delphi.

O baú contador de histórias é um livro, no mínimo, surpreendente. Passamos a ler o título do 1º capítulo:
“Aqui se contam as aventuras e desventuras de um anónimo baú de madeira (assim para o desbocado e com a mania das importâncias) e de Noé Silveira, um rapaz de ambições estadistas e zurrador de primeira linha (sem que uma coisa tenha forçosamente a ver com a outra).”
Por aqui se pode adivinhar a originalidade do texto. Havia um baú que morava na casa dos Silveira, que contava histórias mirabolantes. Noé, um rapazito de 13 anos, filho dos Silveira, queria muito ser político e, imagine-se, zurrava frequentemente! Vá-se lá saber porquê!
Um dia, Noé resolveu ir até ao sótão da sua casa investigar, acabando por descobrir o baú. Uma chuva torrencial começa a cair e Noé salta para dentro do baú, que começa a navegar. Entretanto, sai uma voz do baú que começa a contar:
“Era uma vez um país tão grande que não cabia no mapa. Certo dia, o presidente quis certificar-se da sua grandeza e mandou dois homens de fita métrica no encalço das fronteiras…”
E por aí fora, o baú conta histórias incríveis, onde sobressai uma crítica de costumes e política, atravessada por notas humorísticas que animam a leitura, a par de pormenores fantasiosos.
O baú contador de histórias, do escritor Tiago Salazar é o meu conselho de hoje, eu que sou a Margarida Ferreira.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

VIAGEM PELAS LETRAS - O NÚMERO DOS VIVOS


Correia, H.(1997). O número dos vivos. Relógio d’Água.
A Viagem pelas Letras de hoje embarca no livro de Hélia Correia O número dos vivos.
Romance quase realista, surpreende-nos por toques de novidade introduzidos num realismo quase puro.
É a história de uma rapariga do campo, Maria Emília, que, por ser fêmea, nunca tivera o amor paterno, que se dedicara inteiramente ao seu irmão, João.
A sua madrinha, Emília Inácia, uma velha senhora, ofereceu-lhe, no dia do seu 16º aniversário, um espelho, objeto que será determinante para o futuro de Maria Emília, para que pudesse observar a sua rara beleza, que a distanciaria daquele seu mundo original.
E, na sequência deste acontecimento, Maria Emília vai para Sangréus fazer companhia a uma menina filha única. Nunca mais voltará a ver os seus familiares nem a terra onde nasceu.
É a partir daqui que Maria Emília entra numa nova vida que a conduzirá a um casamento próspero, mas que deita a perder por via da sua quase insanidade.
Hélia Correia, neste  romance, adota um estilo realista, que subverte e através do qual entra numa densa teia de acontecimentos, alguns inesperados e levados quase ao limite, os quais conferem notas de um feminismo muito característico do século XX e que quebram o estilo realista puro, ultrapassando-o. Como exemplo, temos o caso da protagonista, Maria Emília, que ocupa o lugar da heroína ficcional, ao contrário do que seria de esperar, uma vez que é oriunda de uma classe social operária e acaba por ser parodiada. Digamos que a escritora criou “uma anti-heroína feminina da classe operária que é duplamente marginal em relação aos valores patriarcais de classe média”. Como a prefaciadora, Hilary Owen afirma, “O número dos vivos é um pastiche da tentativa histórico-literária da mulher de converter por dentro o realismo clássico.”.

O número dos vivos é o meu conselho desta semana, eu que sou a Margarida Ferreira.